Velhos hábitos, novos negócios.

O mundo virtual é tão diversificado que não falta praticamente nada online. A novidade da vez, pelo menos no Brasil, são os sites de relacionamento. Não, não estou ficando louca, sites de relacionamento são virtualmente tão antigos quanto a pedra, agora… que tal sites de relacionamento extraconjugal?

Velhos hábitos, novos negócios. (Foto: Divulgação)

Os tempos do romantismo pelo visto acabaram em definitivo, nem para pular a cerca as pessoas se dão o trabalho de conhecer e conquistar o parceiro nas pequenas atitudes. Sejamos práticos, não? Alguns minutos de conversa através de um monitor, mais alguns sobre uma cama e pronto, cada um segue sua vida como se nada tivesse acontecido. Certo, certo, o final da frase anterior não descreve somente relacionamentos extraconjugais no formato século XXI, mas onde está a dignidade da traição agora?

Concordo, não há dignidade nenhuma em adornar a cabeça do parceiro com um par de chifres, mas pelo menos antigamente se tinha a desculpa de “conheci sem querer, me envolvi sem querer, a química falou mais alto”. Hoje, nem isso, afinal, ninguém cria um perfil em um site de traição sem querer ou inocentemente.

Proprietários de sites defendem que não estimulam a traição, que quem se cadastra o faria de qualquer maneira; talvez até tenham um pouco de razão, mas os sites facilitam de tal forma a coisa toda que acabam atraindo um público cuja vida real não os permitiria a infidelidade. Como? Simples, o site elimina toda uma etapa “perigosa” no processo de traição que muitas vezes é só o que impede algumas pessoas de serem infiéis.

Daí batemos de frente novamente com o que pensam os donos dos sites – pensar e agir tem muita diferença para quem é traído – é muito diferente para um cônjuge saber que seu parceiro fantasia uma traição e que ele efetivamente tocou e foi tocado sexualmente por uma terceira pessoa. Isso sem contar que a traição, antes vista, em muitos casos, como um impulso puramente hormonal, passa a ser calculado, planejado, muito mais frio e cruel para o parceiro traído.

Se traição já era uma coisa feia e repulsiva, agora se tornou uma forma nojenta de ganhar dinheiro; os sites em questão com certeza movimentarão rios de dinheiro sendo cúmplices de atitudes tão baixas. Eis mais uma característica que servirá, sim, como incentivo à traição – além de mais seguro para conhecer parceiros extraconjugais, os infiéis ainda terão ajuda; em alguns casos altamente elaborada, para manter seus parceiros devidamente enganados, como se isso não fosse uma atitude digna de calhordas da pior espécies.

"Porém, não cabe a nós julgar os donos de sites de traição" (Foto: Divulgação)

Porém, não cabe a nós julgar os donos de sites de traição, eles estão fazendo um trabalho explorando um nicho de mercado – e se funciona, é exclusivamente porque tem público, e o pior, um público imenso.

Também defendem os novos empresários da enganação que, em alguns casos, os traidores afirmam terem seus casamentos salvos pela facilidade com que os sites os presenteiam com seus casos e affairs; bom, daí temos um senhor problema: se o traidor precisa fazer seu cônjuge de idiota para ser feliz com ele, não há o que salvar, não há amor em uma relação dessas. Não há respeito, consideração nem carinho. Não há um relacionamento que mereça ser salvo.

Não tenho opinião formada sobre infidelidade; já me vi apoiando tanto traidores quanto traídos e cada caso é um caso, mas transformar traição em um negócio rentável e elaborado nos mostra o quando o sentimento vale pouco, o quanto o amor perdeu o significado e o quanto o sexo ainda é mais importante que o relacionamento. É uma pena, tínhamos tanto potencial para a civilidade e não estamos fazendo justiça ao fato de sermos a única espécie racional do planeta; se fizéssemos, saberíamos que trair quem supostamente amamos é muito, muito errado.

 

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

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