A verdadeira solução

Ok, tem gente achando que dinheiro público é brinquedinho de criança, não tem outra explicação para a ideia genial de um novo plebiscito sobre…

Ok, tem gente achando que dinheiro público é brinquedinho de criança, não tem outra explicação para a ideia genial de um novo plebiscito sobre desarmamento no Brasil. Para quem não se lembra, milhões de reais deixaram de ser investidos em saúde, educação e segurança para um plebiscito semelhante em 2005, em que o “não” esmagou o “sim” mesmo considerando que a campanha em prol do desarmamento estava imensamente mais bem elaborada e com claros recursos que a rival não tinha.

Pois bem, querem um novo plebiscito agora, por causa do massacre da escola do Rio de Janeiro. Não vou minimizar a tragédia, que me comoveu muito, nem vou dizer que sou a favor de um cidadão armado porque, como qualquer pessoa com mais de dois neurônios, conheço os riscos de uma arma de fogo, já os testemunhei de perto quando minha mãe foi vítima de uma bala perdida, tenho conhecimento de causa.

O grande problema que vejo nessas iniciativas é o quanto elas são hipócritas e midiáticas, visam somente criar uma imagem mais positiva do proponente aproveitando a comoção pública causada pelo fato; ou seja, não há o interesse real de resolver o problema (convenhamos que se houvesse, corrupção seria vista somente em casos isolados).

Vejamos o caso: desde o início do estatuto do desarmamento, em 2004, 90% dos estabelecimentos legalizados faliram. Empresários e funcionários perderam seu ganha-pão em nome de uma causa nobre que não funcionou, porque convenhamos, que bandido compra arma em loja onde tem que enfrentar uma burocracia desgraçada (a qual eu obviamente concordo)? Continuamos testemunhando assassinatos, latrocínios, acidentes, chacinas; praticamente nada mudou.

Aliás, sejamos coerentes; o matador de criancinhas em questão tinha duas armas ILEGAIS. O desarmamento total no Brasil impediria esse crime tão hediondo? NÃO. E não impediria tantos outros, uma vez que metade das armas no Brasil, e incluindo no total armas de polícia, exército e etc., é ilegal. Sendo ilegal, não está sob o controle do Estado. Em outras palavras, o desarmamento poderia tornar o Brasil um país menos violento? NÃO.

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Mas acima de tudo isso, desconsiderando qualquer polêmica sobre desarmar ou não, de novo, a população civil, o que esse possível plebiscito poderia resolver? Além de torrar dinheiro público e deixar bem na foto o político supostamente preocupado com a segurança da população, absolutamente nada. São somente 6 anos desde a última consulta popular sobre o assunto, e é repugnante pensar que militantes do “sim” explorarão ao máximo a morte de 12 crianças e a dor dessas famílias como se tivessem de fato fazendo algum tipo de favor a nós, que teremos a chacina jogada na cara. Reforço, uma chacina cujo desarmamento não evitaria, uma vez que foi executada com armas ilegais.

Não sou contra o desarmamento, não me agrada a ideia da possibilidade de ser um dia, como minha mãe, vítima de uma arma de fogo, mas creio que não é o momento para se gastar tanto dinheiro em uma consulta popular totalmente inútil. Armas não são a causa da violência, sãos as ferramentas da consequência. O caso de Realengo é um caso à parte, não creio que poderia ser evitado de qualquer forma, mas para todo o resto a solução começa muito antes da arma, começa no controle de natalidade, na educação digna, na moradia, na qualificação profissional, na carga tributária justa, no emprego, na saúde e nos exemplos que temos. Talvez o senhor político preocupado com a população podia pensar nesses aspectos, genuinamente, antes de sair de sua mansão em seu carro blindado para propor ações inúteis enquanto temos gente passando fome e analfabeta por aqui.

O Brasil precisa de ações reais, a longo prazo (mesmo que longo prazo não dê votos), porque de hipocrisia já estamos tão cheios que se convertêssemos cara-de-pau em dinheiro, seríamos o país mais rico do mundo.

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Maya Falks

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

Contato: [email protected]

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