A grande surpresa

A grande surpresa.

Clichê, eu sei, falar de eleições na semana em que ganhamos um segundo turno e vários sanguessugas, digo, políticos, foram eleitos. Ironias à parte, tivemos nessa eleição mais um contraste violentíssimo entre o país com o pleito mais moderno e organizado e os políticos e eleitores mais sem noção do planeta.

Certamente alguns dos destaques dessa eleição ficam mais por conta do absurdo do que da boa surpresa, como o caso do palhaço Tiririca, em que nem o próprio levava a candidatura a sério, mas mais de um milhão de pessoas estranhamente levaram, se esquecendo que elegiam alguém para administrar o país, e não a atração do próximo domingo; ou quem sabe a mulher do candidato que foi pro segundo turno porque o marido não passou pelo ficha limpa… será que essa gente que votou nela não sabe que quem vai governar vai ser ele, o ficha suja?

Mas a eleição não teve somente surpresas negativas; tivemos Marina Silva. Ao longo dos últimos muitos anos, tivemos uma briga fechada entre PT e PSDB e meia dúzia de partidos secundários se vendendo para o que estivesse mais forte; eleições presidenciais há tempos não sai desse clichê e, previsivelmente, esse ano não saiu de novo, com a disputa de Serra e Dilma que, ao contrário das pesquisas, levaram a decisão pro segundo turno. A grande surpresa ficou por conta da candidata Marina Silva, do bem menos expressivo e poderoso PV.

Confesso que sei muito pouco da candidata, não acompanhei quase nada de sua candidatura ao ter desde o princípio minha escolha feita, mas é impossível ignorar que Marina pode ter efetivamente sido responsável por esse segundo turno tirando de Dilma os votos decisivos. Marina foi a alternativa a quem desejava votar em uma mulher mas não queria a Dilma presidente; Marina foi a alternativa a quem não deseja Dilma, mas também não vê Serra como uma boa opção.

Talvez a expressiva votação da Marina mostre um descontentamento que tende a crescer, ou ao menos se espera que cresça: a mudança de atitude só acontece quando a atual realidade se torna desconfortável. Talvez a força que ela foi ganhando ao longo da campanha seja o reflexo de uma sociedade exausta dos mesmos (maus)exemplos de sempre; talvez esteja chegando o momento de uma renovação tão aguardada.
Mas nesse momento volto a lembrar de tanta gente eleita que não teve vergonha na cara de ficar longe de algo tão sério como a administração pública e, uma vez eleitos, mostram que toda boa notícia tem seu contraponto. Talvez o sucesso da Marina nessas eleições seja um bom sinal, mas nada de realmente relevante vai acontecer enquanto eleições forem teste de popularidade e eleitores usarem o direito ao voto da mesma forma como usam a privada.

No dia que mais “Marinas” surgirem e esses candidatos “engraçadinhos” tentarem vaga no BBB e não no congresso, talvez aí sim terei esperanças de uma sociedade mais justa, com oportunidades, honestidade e sem guerrinhas infantis entre partidos políticos. O Brasil é um país gigante, é uma das maiores miscelâneas populacionais do planeta, merece mais do que isso.

Maya Falks

Maya Falks

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

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