Para riscar do calendário

Tivemos um fim de semana trágico no planeta Terra. Começou com um maníaco ceifando 93 vidas inocentes e se tornando recordista em homicídios junto…

Tivemos um fim de semana trágico no planeta Terra. Começou com um maníaco ceifando 93 vidas inocentes e se tornando recordista em homicídios junto com alguns dos maiores monstros da história. Terminou com o encerramento prematuro da carreira e vida de uma cantora rara, com uma voz sem igual, mas com um histórico que fez com que sua morte, embora chocante, não chegasse a ser surpresa; a cantora Amy Winehouse.

Não ousarei comparar as duas tragédias, mas ambas mexeram com pessoas do mundo inteiro, primeiro pela atrocidade, crueldade e surpresa com que aconteceram 93 mortes desnecessárias na Noruega, segundo por o mundo inteiro ter testemunhado uma morte lenta e gradativa de uma moça talentosa na casa dos 20 anos, o mundo inteiro a assistiu morrer a cada show drogada e alcoolizada, a cada escândalo público, a cada dia em que sua aparência nada lembrava que a moça sequer chegou perto dos 30 anos.

Amy Winehouse, ao contrário das 93 vítimas norueguesas, se matou. Não estou fornecendo informações privilegiadas nem criando factóides, mas é inegável que, qualquer que seja a causa de sua morte (até o momento em que escrevo existe somente a suspeita de overdose), tem alguma relação com seu abuso de álcool e drogas. Amy Winehouse fez seus amigos, seus familiares e seus fãs assistirem de camarote a degradação e o fim da sua vida.

Mas, novamente ao contrário dos 93 noruegueses brutalmente assassinados, não há a quem culpar pela despedida prematura de Amy, sequer a própria cantora. Uma jovem imatura que se torna celebridade mundial com rotina pesada de shows e exposição constante pela imprensa se apaixona por um dependente químico, usuário de drogas pesadas. Todo o contexto levou Amy Winehouse pelo caminho que acabou por traçar.

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Não estou isentando ela de culpa pelas decisões erradas que tomou, mas não creio que qualquer pessoa esteja apta a julgar sua fraqueza emocional. Nenhum de nós, simples mortais, sabe da inconstância e da pressão de uma vida sem liberdade, sem folga, sem o direito de se esconder de vez em quando. Talvez muitos possam dizer que é impossível ser infeliz com fama e fortuna, mas essa é somente mais uma ilusão do glamour sem limites que já ceifou outras vidas no passado, e com certeza repetirá a dose no futuro.

Fomos testemunhas, muitos de nós foram cúmplices dessa morte lenta de uma artista talentosa, muitos de nós, pelo simples fato de sermos humanos, assistimos curiosos os escândalos, divertimo-nos sadicamente com cada vídeo de shows em que a cantora mal se mantinha de pé. Aplaudimos sua degradação porque foi sua ruína emocional que rendeu alguns de seus maiores sucessos. A arte muitas vezes depende da infelicidade do artista, lamentável que essa infelicidade tenha chegado tão longe no caso de Amy Winehouse.

Enquanto isso 93 pessoas (ou até mais) sucumbiram ao ideal político fanático de um xiita, de um monstro da pior espécie que não ouso chamar de louco, é ofensivo demais aos loucos serem equiparados a esse animal selvagem cujo inferno deverá parecer colônia de férias para tamanha crueldade. Para esse homem não há justificativa, não há influências, não há criação ou crenças que justifiquem; ele é uma pessoa má, muito má. Espero que os familiares das vítimas encontrem um dia a paz, mas confesso que se estivesse no lugar de um deles, não creio que conseguiria encontrar a sensação de justiça feita independente do destino do assassino.

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Foram duas tragédias de níveis diferentes, que afetaram a todos nós de maneiras diferentes. Uma sucumbiu à fama, ao amor e ódio que a mesma provoca, outros sucumbiram ao fanatismo de um monstro, e em nenhum dos casos os fatos servirão de lição. Infelizmente testemunhamos a imutável realidade de que a desgraça é cíclica, que em breve virão novos fanáticos abrindo fogo contra inocentes e novos artistas talentosos deixarão sua vida se esgotar entre álcool e drogas pesadas.

Será que um dia aprenderemos a lição? Será que um dia alguma coisa vai de fato mudar?

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

Contato: [email protected]

Blog: www.mayafalks.blogspot.com

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