Jovens em guerra

Um estudante é morto num assalto; a reitoria toma providências e, por se tratar de uma instituição pública, a polícia passa a fazer a…

Por Redacao em 14/11/2011

Um estudante é morto num assalto; a reitoria toma providências e, por se tratar de uma instituição pública, a polícia passa a fazer a segurança do local. Todos ficam satisfeitos e tudo fica na mais bela paz até que três estudantes são presos por porte de droga ilícita. Começa uma revolução que resulta em dias de conflitos e vandalismo no prédio da reitoria da universidade.

A ocupação da reitoria da USP já não é mais assunto novo; a parte mais escancarada do problema foi resolvida, mas o debate é ainda mais antigo e vai seguir sendo atual. Os debates, na verdade, porque a invasão e depredação do prédio da universidade revela uma série de problemas, desde a questão da descriminalização do uso da maconha até a falta de limites que a geração cara-pintada deu a seus filhos como forma de comprovar sua luta pela liberdade. Então é isso: uma geração vai às ruas lutar pela democracia, a outra destrói patrimônio público pelo direito de fumar maconha. Que fim levaram nossos conceitos e nossa vergonha na cara mesmo?

Já defendi a legalização da maconha anteriormente. Sou contra o uso, acho inútil, imaturo e estúpido, mas sou a favor do livre arbítrio; quer matar meia dúzia de neurônio? A escolha é sua, os meus permanecem vivos – desde que sua escolha não afete minha segurança, e sabemos que a maconha não tem o poder de dependência nem afeta tanto o comportamento quanto outras drogas (inclusive o álcool, lícito). Então, qual é o problema em deixar meia dúzia de adolescente que, como todo adolescente, se acha o rei do mundo e acha que sua vida mansa vai durar para sempre fumar sua erva?

Sim, legalizar a maconha tiraria a traja de “bandido” da testa de muita gente que pode não ser de grande serventia, mas está longe de ser um perigo para a sociedade. Inclusive, o uso da maconha não deve, de forma alguma, servir de termômetro para caráter. Bob Marley virou ícone pelas suas letras, músicas, luta pela paz, e não por encrencas policiais, badernas ou violências, até porque – me corrijam se eu estiver errada – esse tipo de escândalo nunca aconteceu, e ele era usuário declarado da maconha.

Porém, mesmo que eu esteja defendendo a não criminalização de usuários de maconha, também sei muito bem que não importa a bandeira que se levante, é crime, e é obrigação da polícia deter quem comete crimes, independente se é um vagabundo batedor de carteira, um assassino sanguinário ou um estudante universitário. Os alunos da USP, por mais icônica que seja sua universidade, não estão acima da lei.

Três jovens são presos por fumarem maconha. Em sua duvidosa defesa, centenas cometem outros crimes, como perturbação da ordem e depredação de propriedade pública. E destaco o “duvidosa”, porque sou capaz de apostar que grande parte desses jovens que invadiram a reitoria da USP não levanta bandeira nenhuma, estava lá pela farra da “revolução”, da baderna mesmo. Destaco mais ainda o “duvidosa” na medida em que lutar através da violência pelo direito de fumar maconha não é exatamente motivo de orgulho para um país que tem em sua história recente aqueles que derrubaram a ditadura. Isso mostra o quanto estamos ficando pobres de valores.

O mais chocante, talvez, nisso tudo, é que são universitários de uma das universidades mais concorridas do país. Esses jovens precisam estudar exaustivamente para entrar lá e se supõe que sejam inteligentes. A quebradeira totalmente descabida e desnecessária prova que talvez estejamos superestimando muitos deles – e um novo julgamento nesse sentido é lamentável. Considerando o número de baderneiros em comparação com o número de estudantes só esperando seus colegas tomarem vergonha na cara para fazer o que todo universitário deveria fazer: estudar.

Acima de tudo, no meio dessa confusão uma mulher declarou que sua filha não é criminosa para ter que conviver com a polícia no campus; bom, até temos dois pontos de vista: o mais técnico deles, por assim dizer, é que se sua filha invadiu um prédio público à força e praticou vandalismo, ela se torna criminosa por infringir a lei – esse é o princípio básico de ser ou não um criminoso, independente do quão falha ou hipócrita é nossa legislação. O outro ponto de vista que talvez essa mãe tenha ignorado é que a polícia estava lá para proteger a jovem de perigos comuns nas grandes cidades, como assalto, sequestro, estupro e homicídio.

O fato é que a polícia no campus da USP se tornou inconveniente sob a ótica desse grupo de jovens por ter lhes limitado a liberdade de cometer pequenas ilegalidades, desconsiderando que seu suposto direito aos pequenos delitos pode colocar em risco a segurança de todos. E se a USP abre mão dos serviços da polícia e deixa os alunos à própria sorte da porta para fora de cada prédio? É isso que querem? Ou teremos que testemunhar novas quebradeiras e pagar com nossos impostos a reposição do que foi estragado quando a onda de crimes reais começar a acontecer?

Acho sim um exagero levar para a cadeia três jovens pegos fumando maconha, mas que ver um grupo de jovens fazendo o que fizeram pela causa que defenderam é uma vergonha, ah, isso é. Mas eles são frutos de uma geração de pais que não sabem bem o que estão fazendo – enquanto houver pai e mãe passando a mão na cabeça do filho, vai existir jovem achando que tem o rei na barriga.

Maya Falks

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

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