Sobre a falta de bom senso

Não é novidade para ninguém que a religião dita regras no Estado e que isso acontece desde a Idade Média. Também não deveria ser…

Por Redacao em 14/12/2011

Não é novidade para ninguém que a religião dita regras no Estado e que isso acontece desde a Idade Média. Também não deveria ser novidade que essa mistura até hoje só trouxe resultados desastrosos e muito pouco benefício. E o Estado laico ataca novamente.
Na verdade a notícia não é nova; o projeto de lei que está sendo discutido é de 2007, mas creio (e posso estar enganada) que voltou à discussão porque além de meter o bedelho na vida, no corpo e no futuro de milhares de mulheres, agora também quer obrigar milhares de profissionais a quebrarem o código de ética de sua profissão.
O projeto de lei que me refiro foi apelidado de “Bolsa Estupro”, que só pelo nome já temos uma noção que vem muito, mas muito desrespeito à cidadã brasileira pela frente. O projeto prevê a proibição do aborto em todos os casos, o que inclui risco de vida para mãe (porque claro, sua vida não é importante, só do feto) e violência sexual (porque a proteção cristã da vida ignora que ao redor do feto tem um ser humano, e não um recipiente, aparentemente) e o pagamento de um salário mínimo por mês durante 18 anos para a mãe violentada.
Para completar a falta de bom senso da lei, ela não prevê auxílio psicológico à mãe e ao bebê. Somente coloca no psicólogo do Estado a obrigação de convencer essa mãe a ter o bebê, violando as relações entre terapeuta-paciente, o direito constitucional da mulher, a liberdade de escolha, o código de ética profissional, o direito à vida que essa mulher teoricamente teria e subestimando toda e qualquer inteligência entre os envolvidos. Em outras palavras, esse projeto de lei é praticamente um atentado contra uma parte expressiva da população.
Tentemos ser coerentes: uma mulher vítima de estupro carrega em si um trauma que nenhum desses homens, super preocupados com a vida humana, conseguiria conceber, nem com muito exercício de inteligência. Ao gerar uma vida fruto dessa violência, ela terá dentro de seu corpo, por 9 meses, 9 longos meses, a comprovação de que não foi somente um pesadelo, a certeza de que seu corpo não somente foi violado, mas tornou-se alimento e abrigo de algo pelo qual ela não ansiava, não aprovou e não deseja.
Qualquer pessoa com algum QI sabe que gravidez não é o período mais agradável fisicamente na vida de uma mulher. Apesar de toda aquela coisa bonitinha de gerar a vida, o feto se alimenta dessa mulher, seus hormônios enlouquecem, sua coluna vira “lenda”, seu corpo incha e várias partes de sua anatomia ficam em constante sofrimento; fora o parto, que é uma tremenda agressão ao corpo.
Mas ter o filho nos braços faz com que essa mulher esqueça as dores, o sofrimento e todo o resto, pela emoção que ter seu bebê proporciona; quando a mulher ama esse bebê. Quando esse bebê não a lembra do pior momento da existência de qualquer ser humano.
Que o bebê é inocente, nem entro em discussão, mas ele carrega em si 50% do agressor, e nem toda mulher tem condições psicológicas de lidar com isso. Então o projeto de lei prevê um salário mínimo por mês, durante 18 anos para essa mulher.
Como se dar a ela um salário de fome, que não garante o sustento de ninguém, fosse a solução mágica de todos os problemas. Não, Sr. Deputado Federal, não resolve. Não sustenta, não ajuda, não contribui, não faz diferença nenhuma para melhorar a vida de ninguém.
Que tipo de vida feliz e saudável terá essa criança? Talvez tenha, não podemos generalizar, mas se a mulher foi obrigada pela lei dos homens a ter esse bebê, contra a sua vontade, será que ela terá condições de oferecer o mínimo de estrutura para garantir um crescimento saudável ao bebê? Será que garantir esse nascimento “pelo bem da vida humana” não é fruto de uma visão mesquinha, simplista e limitada sobre o próprio conceito de viver? Será que essa própria criança se sentirá privilegiada por estar viva contando com o provável desprezo da mãe, o sentimento de culpa por ter vindo ao mundo, a rejeição por ser não somente indesejada, mas fruto do pior momento da vida da mãe e ainda a certeza de que metade de sua genética é proveniente de um monstro?
Então, senhores legisladores, será que não é cruel demais da parte de vocês obrigarem suas eleitoras, vítimas da estupidez, machismo e ignorância de certos homens, a conviverem diariamente e serem socialmente forçadas a demonstrar algum tipo de amor pela personificação de sua dor, humilhação e outros indizíveis sentimentos que o estupro provoca? E do ponto de vista mais prático: será que o Estado tem condições de “sustentar” por 18 anos todas as crianças geradas pela violência sexual?
Enfim, que os políticos do mundo inteiro tem uma forte inclinação a desrespeitar as mulheres, já não é nenhuma novidade (o surpreendente é isso não ter mudado ainda), agora, o projeto de lei querer obrigar psicólogos a manipular emocionalmente suas pacientes é quase risível. Se não for uma grande piada, merece muito mais do que nossa indignação – merece que tal piadistas de quinta jamais recebam novamente o direito de nos representar, porque convenhamos, isso já está indo longe demais.

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

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