Língua nossa de cada dia

Discurso politicamente correto enjoa, especialmente quando vazio de uma significação real. Não, não vou falar de proteção ambiental como da última vez, mas de…

Discurso politicamente correto enjoa, especialmente quando vazio de uma significação real. Não, não vou falar de proteção ambiental como da última vez, mas de mais um passo em uma tentativa patética de isolar nosso país do resto do mundo. Dessa vez o cenário foi minha terra natal, Rio Grande do Sul, em que um deputado estadual propôs a extinção de termos estrangeiros no nosso vocabulário diário.

Vejamos os pontos: o senhor deputado proponente está mais preocupado com o que falamos no dia a dia do que como somos atendidos nos hospitais, como andam nossas crianças na escola ou se chegamos em casa à noite ainda em posse dos nossos pertences. Perfeito, até aí tudo bem, cada pessoa abraça a causa que melhor lhe convier.

O grande problema começa a nascer quando ele defende que o uso de termos estrangeiros (inglês, somente, não sejamos hipócritas) é uma prova da síndrome do colonizado. Ora, senhor deputado, então por que o seu super relevante projeto não defende a abolição do português (língua dos nossos colonizadores) e adoção do tupi-guarani? Mas tudo bem, ignoremos mais esse ponto. Ele quer preservar nossa cultura; bonito isso, certo? Então quem sabe criemos um projeto de lei que acabe com o carnaval? Carnaval não é uma festa brasileira, é uma adaptação de uma festa europeia que existe desde muito antes do nosso “descobrimento” (leia-se que nossa adaptação foi basicamente tirar a roupa das mulheres e liberar tuuuudo!). Ter como evento máximo nacional uma festa europeia não é também síndrome de colonizado?

Mas se o projeto de lei do senhor deputado fala em estrangeirismos, o que nós, gaúchos (o que o inclui) faremos com nossas gírias? A grande maioria delas é oriunda do castelhano uruguaio. Se formos justificar que essas palavras já foram absorvidas pela nossa cultura, assim como as francesas “abajur” e “abacaxi”, será que não podemos afirmar que “happy hour”, “notebook”, “mouse” , entre tantas outras, também já foram?

Leia Também:  Presidente Dilma Rouseff sansiona lei que amplia o Supersimples

Diz o deputado que não quer proibir o uso dos termos em outras línguas, somente exigir que recebam sua tradução; agora imaginem a situação em, por exemplo, um cartaz em uma cafeteria: “Aproveite nosso happy hour (hora feliz)!”, ou um anúncio de rodapé de jornal “Promoção de notebooks (computadores portáteis), na compra ganhe um mouse (rato)”. Primeiro que isso subestima a inteligência do nosso leitor, segundo que não muda nada, só acrescenta explicações desnecessárias ao texto, terceiro que dá um empurrãozinho extra para o desinteresse do povo em aprender uma língua que serve de meio de comunicação universal. Qualquer país do mundo com um pouco de visão de futuro incentiva o aprendizado da língua mais globalizada do mundo; estamos inseridos em um contexto muito maior do que os limites do nosso quintal, e não há nada de errado nisso.

Mas não sejamos totalmente pessimistas, ele até que cita um exemplo válido; as diferenças entre light e diet para não causar prejuízos na saúde do consumidor diabético, por exemplo, mas esse seria um problema facilmente resolvido com a exigência do uso dos termos “sem açúcar” ou “sem gordura” em grande destaque nas embalagens. Há outro ponto que concordo: em muitos aspectos as empresas abusam da “beleza” do estrangeirismo, usando “sale” ou “off”, ou diversos outros termos, sem real necessidade; poderia de fato existir um pouco de bom senso entre as pessoas que escolhem as palavras usadas.

Porém, nem os lados positivos da lei a justificam. Ainda mais quando um dos deputados que votou a favor da lei é um artista bem conhecido pelas bandas de cá pelo seu nome artístico que, pasmem, contém um termo em inglês. É, essa ironia é uma mostra do quanto somos órfãos nesse país; nos faltam exemplos! Nossos políticos adoram nos enfiar leis dispensáveis goela abaixo mas não nos dão motivos para acreditar nelas. Talvez nosso país só se torne uma nação de primeiro mundo quando nossos representantes estiverem à nossa altura.

Leia Também:  Poupem os Fofinhos!!

Maya Falks

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

Contato: [email protected]

Blog: www.mayafalks.blogspot.com

 

Top