Da mesma espécie

As demonstrações de preconceito nesse país (e fora dele) já ultrapassaram a barreira do absurdo. Essa semana veio a notícia alarmante que pai e…

Por Redacao em 21/07/2011

As demonstrações de preconceito nesse país (e fora dele) já ultrapassaram a barreira do absurdo. Essa semana veio a notícia alarmante que pai e filho foram espancados em São Paulo depois de serem confundidos com um casal gay. Dois homens, independente do seu grau de relacionamento ou parentesco, pelo simples fato de estarem juntos, podem correr riscos pelo simples fato de que algumas pessoas se julgam no direito de agredir outras.

Eram pai e filho abraçados, demonstrando um ótimo relacionamento entre a figura paterna e seu rebento, e, pela pública demonstração do seu afeto, foram feitos alvos do preconceito. Mas… e se de fato fosse um casal gay? Mudaria o grau de violência? Amenizaria o crime cometido? Não posso responder pela lei, mas em termos morais, sim, porque em nosso território o desprezo contra homossexuais não é considerado crime.

Alguns anos atrás, um índio foi queimado vivo; se não bastasse a crueldade com que esse homem, esse ser humano, foi privado de sua vida, testemunhamos perplexos o argumento da defesa dos assassinos: “achamos que era um morador de rua”. Ok, e sob que aspecto isso muda o fato de terem assassinado um ser humano? Nesse caso a situação não é diferente, “achamos que eram gays” como justificativa para o espancamento de pai e filho. Aliás, a mesma desculpa de um conhecido político há pouco tempo atrás ao ser acusado de racismo – esperteza pura, já que racismo é crime e homofobia não.

Caramba, em que mundo vivemos? Que tipo de civilização é essa em que as pessoas agem como selvagens? Não vemos, na natureza, um leão matar outro porque seu pelo é mais escuro, nem um grupo se pinguins espancar um deles porque sua mancha branca no peito é mais estreita! E incluo aqui o comportamento homossexual, uma vez que o mesmo é visto em mais de 400 espécies na natureza, mas a única que discrimina seus membros por isso é a espécie humana. Ironicamente, a espécie racional.

E então emendamos com a naturalidade com que as pessoas encaram as diversas formas de violência. Imaginem vocês que tem humorista famoso fazendo piada com estupro! Com a pior violência que uma mulher pode sofrer! E então volta a pergunta: em que mundo vivemos?

É cada vez mais desafiador sair da cama toda manhã sabendo que gays são assassinados por sua orientação sexual, que nordestinos são discriminados por sua origem, que mulheres apanham de seus maridos porque alguém lá atrás resolveu que quem manda é o homem, que crianças são violentadas ou forçadas ao trabalho escravo porque são mais vulneráveis, que negros ganham menores salários pela sua cor, que pessoas obesas são tratadas como nojentas, que animais levam pedradas nas ruas porque alguém acha divertido, que ateus são tratados como demônios por crentes e crentes são tratados como imbecis por ateus, e o pior, que tem gente se achando no direito de fazer tudo isso…

Infelizmente, não importam quantas colunas eu ainda venha a escrever sobre preconceito, ele sempre vai existir. Não vou desistir, não vou me calar, mas sei que estou em uma guerra perdida. Porém, me mantenho firme porque tenho a verdade do meu lado, a imutável verdade de que somos todos iguais dentro de nossas diferenças, e nada, nenhuma violência, nenhum preconceito e nenhuma característica vai mudar o fato de que pertencemos à mesma espécie e de que ninguém é melhor do que ninguém.

Quem sabe um dia a gente aprende?

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

Contato: [email protected]

Blog: www.mayafalks.blogspot.com

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