3 dígitos

  Semana passada uma jovem simples, dona de uma dicção e coerência invejável, virou notícia ao se tornar, sem qualquer pretensão, porta-voz não somente…

 

Semana passada uma jovem simples, dona de uma dicção e coerência invejável, virou notícia ao se tornar, sem qualquer pretensão, porta-voz não somente de toda uma classe de trabalhadores brasileiros, mas de toda sociedade, ao denunciar a precariedade da educação em nosso país. Amanda Gurgel se tornou febre na internet ao expor seu contracheque com 3 míseros dígitos a pessoas cujos mesmos 3 dígitos mal cobrem um jantar em um fim de semana qualquer.

Amanda aproveitou a exposição conquistada na mídia para estapear metaforicamente nossos governantes (fotos: divulgação)

Não satisfeita (ainda bem), Amanda aproveitou a exposição conquistada na mídia para estapear metaforicamente nossos governantes, argumentando que tratam a escola como um “depósito de crianças”, que o que importa é facilitar a vida dos pais que não podem estar com seus filhos porque precisam trabalhar (e não há nada de errado nisso) mas esquecem que esse lugar para onde vão essas crianças tem que ter algo a oferecer, ou simplesmente não faz sentido.

 

Entretanto, de seus argumentos, o que me chamou mais atenção foi a questão da sobrecarga e o exemplo usado por Amanda para justificar sua queixa deveras pertinente. Recentemente escrevi uma coluna sobre o tal desarmamento defendendo a educação como maneira de evitar a violência; acertei no ponto mas ignorei algo que Amanda levantou: a escola pode sim ajudar a evitar casos como o de Realengo, que envolvem loucura, doença mental ou transtornos psicológicos; basta que o professor esteja preparado, apto e com condições de observar o comportamento de seus alunos.

Segundo a professora, atualmente a realidade é de que os professores mal conseguem decorar o nome de todos os seus alunos pela quantidade de turmas que precisam assumir, quanto mais observar uma ou outra peculiaridade no comportamento de alunos. Então temos um problema aí muito maior do se imaginava, ou pelo menos do que eu imaginava: temos professores mal remunerados, sobrecarregados, escolas sucateadas transformadas em “depósitos de crianças” e o mais grave, discursos eleitoreiros que nunca saem do papel.

Qual o motivo de um senador ganhar o salário de um professor por hora? (fotos: divulgação)

Qual o motivo de um senador ganhar o salário de um professor por hora? Por que em uma escala de profissionais melhor remunerados, o professor nunca aparece? Nenhum médico, nenhum empresário, nenhum advogado ou juiz, nenhum profissional de nível superior estaria onde está se não fossem os professores em seu caminho. Então por que é tão difícil valorizar o professor nesse país?

Não sou a favor das greves, elas são muito prejudiciais aos alunos e seus pais, e são sem dúvida um atraso para todos, mas será que sem elas o vergonhoso contracheque de Amanda Gurgel seria levado a sério? Aliás, será mesmo levado a sério?

Enquanto a educação não receber a atenção que merece e os professores não forem tratados como profissionais de primeira importância para o Brasil, nos resta muito pouca esperança de um futuro digno para as futuras gerações. A violência não se acaba sozinha, e ela começou por algum motivo.

Como cidadã brasileira, agradeço à professora Amanda Gurgel pela coragem, pela audácia e atitude. Posso dizer, por justiça, que, embora escrita com minhas palavras, boa parte dessa coluna é da autoria dela, com sua argumentação, sua exposição, sua coerência e principalmente, sua vontade de fazer a diferença.

 

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

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