Retrospectiva da vida de Sócrates

  Sócrates Brasileiro de Souza Vieira de Oliveira nasceu em 19 de fevereiro de 1954, na cidade de Belém, capital do Pará. Ele foi…

Por Editorial em 07/12/2011

Retrospectiva da vida de Sócrates

 

Sócrates Brasileiro de Souza Vieira de Oliveira nasceu em 19 de fevereiro de 1954, na cidade de Belém, capital do Pará. Ele foi o primeiro de seis filhos de Raimundo e Guiomar e ganhou o nome do filósofo grego pois, à época do seu nascimento, seu pai lia a República, de Platão.

Antes que Sócrates completasse um ano seu pai, funcionário da Receita Federal, foi transferido para Ribeirão Preto, para onde mudou-se com toda a família. Foi na cidade do interior paulista que Sócrates passou toda a infância e adolescência.

No colégio Irmãs Maristas, em Ribeirão Preto, que Sócrates teve sua iniciação esportiva e aos doze ele já figurava nas linhas do Raio de Ouro, equipe amadora da cidade. Três anos mais tarde, aos quinze, Sócrates ingressava às divisões de base do Botafogo de Ribeirão Preto, uma das equipes mais tradicionais do futebol do interior de São Paulo.

A estreia nos profissionais do tricolor ribeirão pretano aconteceu em 1973 e, desde seus primeiros jogos, Sócrates impressionou torcedores, dirigentes, companheiros de clube, adversários e imprensa especializada. Em 1976 foi artilheiro do Campeonato Paulista com 15 gols e em 1977 conquistou seu primeiro título como profissional, a Taça Cidade de São Paulo, batendo o São Paulo em pleno Morumbi na decisão do campeonato.

Sócrates ficou no Botafogo de Ribeirão Preto até 1978, quando se transferiu para o Corinthians. E foi no time da capital que ele se consagrou nacionalmente. Não foi preciso muito tempo para que o Magrão se tornasse ídolo da fiel, sendo reverenciado até os dias de hoje pela torcida corintiana.

No clube do Parque São Jorge ele fez parcerias memoráveis com Chicão, Palhinha e, principalmente Casagrande, parceiro dentro e fora do campo que o acompanhou por toda a vida.

Além dos títulos paulistas de 1979, 1982 e 1983, no time paulistano Sócrates encabeçou o movimento idelógico mais importante da história do futebol brasileiro, a Democracia Corintiana. Utilizando o sistema de autogestão, onde os jogadores tinham direito a voto nas questões mais importantes do time do Parque São Jorge, o elenco corintiano tomava parte no conturbado momento político brasileiro, requisitando o início do processo de redemocratização do país.

Em 1984 Sócrates transferiu-se para a Fiorentina, da Itália. O Magrão permaneceu por apenas uma temporada no clube Viola e voltou ao Brasil em 1985 para defender o Flamengo, onde conquistou seu último título como jogador profissional, o Campeonato Carioca de 1986.

Sócrates ainda defendeu o Santos e encerrou a carreira de jogador no Botafogo de Ribeirão Preto, onde tudo começou.

Em 2004 Sócrates foi contratado pelo Garforth Town, da Inglaterra, clube que hoje atua na 8ª divisão inglesa. A aventura britânica durou pouco, aos cinquenta anos o Magrão fez apenas uma partida com a camisa amarela do Garforth Town.

Sócrates na Seleção Brasileira 

Sócrates foi convocado pela primeira para a Seleção Brasileira em 1978, quando ainda jogava pelo Botafogo de Ribeirão Preto. Mas sua estreia com a camisa canarinho só aconteceu em 17 de maio de 1979 – quando já era jogador do Corinthians – em um 6 x 0 amistoso contra o Paraguai, no Maracanã. Seu primeiro gol pelo escrete nacional acontece 14 dias após sua estreia, no dia 31 de maio de 1979, na vitória brasileira por 5 x 1 sobre o Uruguai, partida amistosa disputada no Maracanã.

Sócrates fez parte de uma das gerações mais brilhantes da história do futebol brasileiro. Ao lado de Zico, Falcão e tantos outros craques, o Magrão disputou duas Copas do Mundo, 1982 na Espanha e 1986 no México. Embora tenha encantado o mundo com um futebol elegante e altamente ofensivo, este time do início da década de 1980 não conquistou nenhum título oficial, tendo ficado com dois quintos lugares nas Copas do Mundo de 1982 e 1986.

Ainda pela Seleção, Sócrates disputou a Copa América em duas oportunidades. No Uruguai, em 1979, a Seleção Canarinho ficou em 3º lugar e no Brasil, em 1983, amargou o vice campeonato.

O Doutor Sócrates 

Sócrates ganhou o apelido de Doutor, e não foi só pela extrema categoria que demonstrava em campo. Em 1971, quando ainda atuava pelo time juvenil do Botafogo, o Magrão começou os estudos de medicina na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto. Mesmo depois de profissionalizar-se, em 1973, Sócrates não abandonou os estudos e concluiu o curso em 1977.

O Político Sócrates 

Um acontecimento da infância marcaria Sócrates por toda a vida e influenciaria de maneira significativa sua visão do mundo e da sociedade. Quando tinha apenas dez anos eclodiu o Golpe Militar de 1964 e o pequeno Sócrates viu seu pai – com medo da repressão – queimando seus livros que eram sua grande paixão.

Desde então a política esteve sempre presente na vida de Sócrates. O Doutor encabeçou o movimento ideológico que ficou conhecido como Democracia Corintiana e foi um membro ativo do processo de redemocratização do país e do Movimento Diretas Já, que reivindicava eleições presidenciais no Brasil, algo que não acontecia desde o Golpe Militar de 1964.

Durante esta época Sócrates era figurinha carimbada nos comícios de todo o país que apoiavam o movimento pelas eleições diretas. Dentro de campo ele também não se omitia e não deixava de dar o seus recados. Passou a comemorar seus gols com o punho cerrado, começou a usar uma faixa com os dizeres “Diretas Já” e passou a usar uma caneleira amarela – cor símbolo do movimento – por cima do meião.

Mesmo depois de reestabelecida a democracia no Brasil, Sócrates seguiu com sua postura crítica e altamente politizada, tanto em relação às questões macro do país como nos assuntos referentes apenas ao futebol brasileiro.

O Artista

A participação efetiva no movimento político brasileiro dos anos 1980 fez com que Sócrates se aproximasse da classe artística brasileira que cumpriu um importante papel no processo de redemocratização do país.

E esta aproximação possibilitou que o Magrão se arriscasse no mundo das artes. Em 1979 teve sua primeira ponta, uma participação especial na novela Feijão Maravilha, da Rede Globo. Em 1980 gravou o disco Casa de Caboclo e, ainda no terreno da música, participou das gravações do album Aquarela, um dos maiores sucessos de Toquinho. No teatro, Sócrates produziu a peça Perfume de Camélia, em 1983.

O Jornalista

Sócrates também participou de programas jornalísticos na televisão e foi colunista de diversos jornais e revistas brasileiras, como a Carta Capital e o Jornal Agora São Paulo. Foi comentarista do tradicional programa Cartão Verde, da TV Cultura, entre 2008 e 2011. O Magrão também estrelou dois programas de entrevistas, o Papo com Dr, na TV Kajuru, e o Sócrates + Brasileiro, no Canal Brasil.

O Técnico

Logo após encerrar a carreira de jogador, Sócrates tentou a sorte como treinador do Botafogo de Ribeirão Preto, em 1990. O Magrão não completou um ano à frente do time que o revelou para o mundo do futebol e teve mais duas experiências como técnico profissional. Em 1996 dirigiu a LDU, do Equador, e em 1999 foi técnico da Cabofriense, time do interior do Rio de Janeiro. Em 2011 o Doutor Sócrates foi convidado para dirigir a Seleção Cubana, mas os problemas de saúde o impediram de aceitar o convite.

O gênio dos calcanhares 

Sócrates foi um jogador genial, que se notabilizou pela inteligência e grande visão de jogo. Alto e extremamente magro, ele nunca se encaixou no estereótipo do atleta, mas compensava a deficiência física com uma técnica impressionante e uma visão de jogo muito acima da média. Notabilizou-se pelos clássicos passes de calcanhar que, segundo ele, eram uma alternativa para a pouca mobilidade em função de sua estatura.

Os últimos dias

Em agosto de 2011 Sócrates foi internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do hospital israelita Albert Einstein, em São Paulo, por conta de uma hemorragia no sistema digestivo causada por uma crise hipertensiva. Após esta internação em agosto, veio a público seu problema com o alcoolismo. O Magrão voltou a ser internado em setembro e, mais uma vez em dezembro, quando não resistiu aos problemas de saúde. Sócrates faleceu no último domingo, quatro de dezembro, em decorrência de um choque séptico. Ele foi sepultado no mesmo dia, no cemitério Bom Pastor, em Ribeirão Preto.

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