Foi só brincadeirinha

Fui vítima de bullying. Enfrentei meu inferno adolescente em uma época em que o termo bullying ainda não existia, em que o que passei…

Fui vítima de bullying. Enfrentei meu inferno adolescente em uma época em que o termo bullying ainda não existia, em que o que passei na escola era visto somente como brincadeirinhas inocentes dos colegas somadas ao meu “excesso de sensibilidade”, não era um problema levado a sério; mas também não existiam celulares com câmera, nem youtube, Orkut, facebook, twitter ou qualquer outro meio em que minha humilhação se tornasse pública, o que certamente foi um atenuante na minha história.

De tempos em tempos a história se inverte, como aconteceu essa semana, com o garoto australiano Casey Heynes, apelidado de Zangief Kid em homenagem a um jogo de luta. Casey, vítima constante das humilhações juvenis por seu excesso de peso, revidou de forma surpreendente diante da câmera de algum colega, suspendendo seu agressor no ar e jogando-o ao chão. A “vítima” teve dificuldades de andar após a ação do garoto por ter batido fortemente as pernas em uma espécie de canteiro. Pois bem, eu sou terminantemente contra qualquer tipo de violência, mas nesse caso em especial, confesso que vibrei com o desfecho. Para quem desejar, pode conhecer o vídeo pelo link http://www.youtube.com/watch?v=QzhFan3kk0E.

Pais, professores, escolas, adultos em geral que nunca tenham sentido na pele a gravidade do bullying ainda tem certas dificuldades em reconhecer os efeitos devastadores que anos de humilhação podem causar na vida de uma pessoa; felizmente entre psicólogos e psiquiatras, a mentalidade vem mudando e as tais brincadeirinhas inocentes vem se tornando cada vez mais um problema real de saúde pública. Entretanto, nada vai mudar enquanto os pais dos agressores incentivarem ou simplesmente ignorarem o comportamento selvagem de seus filhos.

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Selvagem. É um bom resumo das atitudes de um praticante de bullying. Não há nesse sujeito o mínimo de noção de civilidade e respeito alheio, defeito que certamente vem de casa porque embora crueldade seja algo inato (no meu ponto de vista), uma criança pode ser educada da melhor forma possível, tornando-a mais apta a conviver com os demais, a menos que se trate de um sociopata. Independente da idade do agressor, uma pessoa capaz de efetivamente se divertir com o sofrimento de um ser humano certamente terá um longo histórico de desfavor à sociedade. A vítima, por sua vez, é muito provável que jamais consiga ter uma trajetória de vida saudável e tranquila.

Bullying é assunto sério, já não era sem tempo ser visto como um problema social, e está mais do que na hora de buscar soluções efetivas sobre isso; é a única maneira de evitarmos cenas como as vistas no vídeo do garoto australiano, que sofria agressão física antes de reagir, ou dos inúmeros casos de vinganças que custam vidas e principalmente o número cada vez maior de suicídios entre jovens que não tiveram a chance de descobrir que um dia acaba. Aliás, acaba mesmo? Crueldade não é exclusividade de crianças e adolescentes mal educados; infelizmente o mundo é cheio de adultos desnecessários ao progresso do nosso modo de vida.

Maya Falks

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

Contato: [email protected]

Blog: www.mayafalks.blogspot.com

 

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