Criminoso tipo importação

Ao longo da última semana acompanhei comentários sobre a evolução (ou regressão) do caso Battisti, o criminoso italiano acolhido no Brasil, e confesso que fiquei perplexa e disposta a não acreditar nos fatos. Mas não dá mais para disfarçar que a justiça brasileira provou mais uma vez os motivos de levar uma péssima fama de ineficiência.

Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália por quatro homicídios e participação em um quinto, além de acusações de terrorismo que poderiam ligá-lo a diversos outros crimes. Como todo mundo faz, ele se declarou inocente, mas não creio que um país como a Itália lutaria tanto pela condenação de um criminoso se não houvesse provas o bastante de que ele é de fato um homicida.

Pois bem, o homem fugiu e aparentemente escolheu o melhor lugar do mundo para se refugiar. Preso no Rio de Janeiro em 2007, Battisti passou a cumprir uma pena de 30 anos de reclusão em respeito à pena de prisão perpétua a qual foi condenado em seu país natal, uma vez que 30 anos é o máximo que nossa lei permite. A partir desse momento, o governo italiano passou a lutar pela extradição do monstro, digo, criminoso.

Na ocasião, qualquer pessoa com algum grau de instrução apostaria que Battisti não permaneceria no país por muito tempo, até que, surpreendentemente, o então Ministro da Justiça e atual Governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, garantiu ao terrorista o status de refugiado político, como se o cumprimento da pena em seu país natal fosse algum tipo de ato criminoso, ignorando completamente o direito à justiça que deveriam ter os familiares das vítimas para preservar a vida de Battisti. Tendo a decisão de Genro apoiada pelo então Presidente Lula, Battisti passou a ser praticamente um convidado VIP em nosso território, uma vez que passou a ser sustentado pelos nossos impostos.

Embora tudo isso já soe um grande absurdo para qualquer pessoa com algum bom senso, a história teve um novo capítulo ainda mais surpreendente quando, nessa última semana, o criminoso ganhou da justiça brasileira o direito à liberdade. Excelente, primeiro acolhemos e depois libertamos um criminoso, escarrando sobre a constituição italiana (que teoricamente deveria ter direitos sobre Battisti) e sobre a dignidade do povo brasileiro.

A população italiana está revoltada, pedindo todo o tipo de boicote ao Brasil. Juram os poderosos que as relações comerciais não serão afetadas e diplomaticamente nada mudará entre os dois países, mas sabemos que não é bem assim; a não extradição já foi uma grande demonstração de desrespeito à Itália, já a libertação do criminoso é praticamente um deboche, o que, sob o meu ponto de vista, não faz o menor sentido.

O que tem esse homem de tão imprescindível ao nosso país que merece o custo que podemos pagar tendo relações abaladas com o país europeu? É assustador pensar que pessoas sem um pingo de bom senso estão tomando decisões dessa grandeza e importância, ignorando que o mundo é muito maior que qualquer ideologia ultrapassada que possa servir de ligação entre esses homens do poder e um terrorista homicida e fugitivo.

Battisti é um grande problema para nós, brasileiros, mas aparentemente vamos ser obrigados a engolir a seco essa história e aceitar que o criminoso italiano é bem-vindo em nossa casa, talvez até mais do que nós mesmos.

 

Maya Falks é escritora, publicitária e roteirista. Contista premiada, é editora de blog homônimo e apaixonada por literatura, música, cinema e propaganda, sendo devotada às palavras em suas mais diversas manifestações.

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